Editorial

Pavimentação com concreto agride o meio ambiente

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Pavimento em paralelepípedos em rua de Montmartre, em Paris (França), feito há séculos

José Gonçalves Cangussu

(Jornalista com pós-graduação em Educação e Gestão Ambiental)

A Associação Brasileira de Cimento Portland – ABCP – está incentivando a adoção de uma das mais danosas medidas contrárias ao meio ambiente. A entidade, criada em 1936, é mantida pela indústria brasileira do cimento. Dizendo-se “centro de referência em tecnologia do cimento”, garante que “tem usado sua expertise para o suporte a grandes obras da engenharia brasileira e para a transferência de tecnologia das mais diversas formas”.

Agora, com vistas a aumentar a venda de cimento e o lucro das cimenteiras, a ABCP está incentivando a adoção de pavimento de concreto por parte dos municípios “devido à longa durabilidade, baixa manutenção e custos”.

Alguns municípios brasileiros citados pela associação já caíram na conversa, espelhando-se no programa “Concretemos Nuestra Cuadra”, desenvolvido em Bogotá e Barranquilla, na Colômbia. Pergunta-se: onde e quando a Colômbia serviu de exemplo para alguma coisa?

No Brasil, seguindo o mau exemplo dos colombianos e o péssimo conselho da ABCP, já cairam na fantasia as cidades de Cachoeiro de Itapemirim-ES, São Bento-SC e Rio Negrinho-SC.

Para justificar o incentivo ao uso do concreto como pavimentação, a ABCP diz que ele é 30% mais barato que o asfalto e mais fácil de ser aplicado.

Nenhum dos dois pavimentos é recomendado para áreas urbanas. Ambos impermeabilizam o solo, não permitindo a infiltração das águas das chuvas. Com isso, facilitam as enchentes, transbordamentos de cursos d’água e os alagamentos. Ambos, também, prejudicam o clima, aumentando sensivelmente o calor nas ruas e casas, edifícios etc. E ambos se desgastam facilmente com o tempo, o pisoteio e o tráfego de veículos, requerendo novos gastos.

Por que a ABCP não recomenda o uso de paralelepípedos de granito? Será pelo fato de terem durabilidade praticamente infinita? Ou isso se prende ao fato de permitirem manutenção baratíssima, com mão de obra comum e reposição de apenas alguns poucos baldes de areia? Ou será, finalmente, pelo fato de não darem lucro para a indústria cimenteira?

Senhores prefeitos, não se deixem levar por esse enredo da ABCP. O Império Romano pavimentou cidades e estradas com pedras, com granito. As cidades da Europa têm história secular, têm tradição no uso de pavimentação. Berlim, Munique, Paris, Praga e demais grandes cidades mantêm pavimentação de suas ruas com paralelepípedos de granito. Eles geram centenas de empregos na confecção, são mais práticos na aplicação, tornam-se muitíssimo mais baratos ao longo do tempo e permitem a permeabilidade pelos vãos entre eles. E, por outro lado, ainda facilitam a dissipação do calor, justamente por serem instalados com distância entre si. Como todo piso, o paralelepípedo precisa ser aplicado com acerto. (Foto: Pixabay)

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